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Crônicas Escolhidas — José de Alencar

Mauro Demarchi, 09/08/202609/08/2026
⏱️ Tempo estimado: 4 minutos

Título: Crônicas Escolhidas
Autor: José de Alencar
Editora: Folha de S.Paulo / Ática
Ano de publicação: 1995
Páginas: 192
Formato: Edição de bolso, brochura
Gênero: Crônicas, literatura brasileira, jornalismo
Temas: Rio de Janeiro, costumes, política, artes, sociedade brasileira, cotidiano

José de Alencar é lembrado principalmente como romancista. O Guarani, Iracema, Senhora e Lucíola fazem parte do patrimônio literário brasileiro e garantiram ao autor um lugar de destaque no Romantismo. Antes, porém, de se tornar o grande escritor conhecido pelas gerações posteriores, Alencar foi jornalista e cronista. E é justamente esse jovem escritor que encontramos em Crônicas Escolhidas, volume publicado pela Folha de S.Paulo em parceria com a Editora Ática, em 1995.

A edição reúne textos escritos entre 1854 e 1857, quando Alencar tinha aproximadamente 25 anos. As crônicas foram publicadas originalmente nos jornais cariocas Correio Mercantil, na conhecida coluna “Ao correr da pena”, e Diário do Rio de Janeiro.

O título da coluna já revela muito do espírito desse gênero jornalístico. A crônica permite que o escritor acompanhe o movimento da cidade e registre aquilo que acontece diante de seus olhos: acontecimentos políticos, espetáculos, manifestações artísticas, modas, comportamentos e pequenas situações do cotidiano.

Alencar observa a sociedade do Rio de Janeiro do Segundo Reinado com o olhar atento de quem deseja compreender e, ao mesmo tempo, divertir o leitor. Suas crônicas são marcadas pela ironia, pela sátira e pela observação dos costumes, características que fazem com que textos escritos há mais de um século e meio ainda possam despertar interesse.

O Rio de Janeiro retratado nessas páginas é muito diferente da cidade que conhecemos atualmente. Era a capital do Império, centro político e cultural do país, e passava por transformações que modificavam seus hábitos e sua paisagem. Nas crônicas de Alencar encontramos justamente o registro desse movimento.

Há, portanto, um valor histórico que ultrapassa o literário. O cronista acaba funcionando como uma espécie de testemunha de seu tempo. Ao comentar uma peça de teatro, uma novidade urbana, uma questão política ou simplesmente os costumes dos habitantes da Corte, Alencar deixa para o futuro um retrato fragmentário da sociedade brasileira de meados do século XIX.

Essa talvez seja uma das características mais interessantes da crônica: aquilo que parecia passageiro para o leitor de então pode tornar-se documento para o leitor de hoje.

Ler Alencar cronista também permite perceber a formação do escritor que posteriormente produziria alguns dos mais importantes romances brasileiros. A linguagem, a imaginação, o gosto pela descrição e a capacidade de construir cenas já aparecem nesses textos jornalísticos. O jovem jornalista experimentava, nas páginas dos jornais, recursos que posteriormente encontrariam outra dimensão em sua obra literária.

Ao contrário de um romance, a crônica nasce presa ao presente. Ela precisa acompanhar o ritmo da vida. Por isso, muitas referências feitas por Alencar exigem do leitor contemporâneo alguma contextualização. Mas essa distância histórica é justamente parte do encanto da leitura: somos transportados para uma cidade que já desapareceu e passamos a enxergá-la através dos olhos de um jovem escritor.

A edição de bolso da Folha de S.Paulo, publicada em 1995, com 192 páginas, proporciona uma oportunidade particularmente interessante de reencontrar esse Alencar jornalista. Para quem conhece apenas seus romances, o livro apresenta uma faceta menos conhecida do escritor. Para quem se interessa pela história da imprensa brasileira, oferece ainda um testemunho precioso de uma época em que os jornais eram um dos principais espaços de debate intelectual e de formação da opinião pública.

Crônicas Escolhidas mostra, enfim, que José de Alencar não começou sua carreira literária nas páginas dos grandes romances que o tornariam famoso. Antes de criar personagens e histórias que entrariam para a literatura brasileira, ele aprendeu a observar pessoas, costumes e acontecimentos.

E talvez seja essa a grande lição que permanece dessas crônicas: o cotidiano, quando observado por um escritor atento, deixa de ser simplesmente cotidiano e transforma-se em memória.

Este volume faz parte da mesma coleção que reúne Crônicas Escolhidas, de Machado de Assis. Os dois livros oferecem ao leitor uma oportunidade singular de acompanhar, através da crônica jornalística, a vida do Rio de Janeiro no século XIX. Em Alencar encontramos o jovem escritor que observa a Corte “ao correr da pena”; em Machado, encontramos o cronista que transforma o cotidiano em uma sofisticada reflexão sobre a sociedade e a natureza humana.


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