Título: Crônicas Escolhidas
Autor: Machado de Assis
Editora: Ática / Folha de S.Paulo
Ano de publicação: 1994
Páginas: aproximadamente 182
Formato: Brochura
Gênero: Crônicas, literatura brasileira, jornalismo
Temas: Rio de Janeiro, política, sociedade, costumes, cotidiano, crítica social
Machado de Assis é universalmente reconhecido como um dos maiores escritores da língua portuguesa. Seus romances, contos e personagens transformaram-no em uma referência fundamental da literatura brasileira. Entretanto, uma parte considerável de sua produção nasceu nas páginas dos jornais, onde durante décadas exerceu um olhar atento, irônico e muitas vezes mordaz sobre a sociedade de seu tempo.
É esse Machado de Assis cronista que encontramos em Crônicas Escolhidas, volume editado em parceria pela Editora Ática e pela Folha de S.Paulo em 1994.
A edição, em formato de brochura e com aproximadamente 182 páginas, reúne uma seleção de textos da produção jornalística do escritor. Faz parte de uma coleção que levou ao grande público obras de importantes autores brasileiros, em edições de bolso distribuídas pelo jornal.
Ler Machado de Assis como cronista é descobrir um escritor que não precisava de grandes acontecimentos para construir literatura. O cotidiano do Rio de Janeiro já lhe oferecia matéria abundante. Uma notícia política, uma mudança administrativa, um acontecimento social ou uma cena aparentemente banal podiam transformar-se, sob sua pena, em motivo para reflexão.
Seu instrumento principal é a ironia
Machado raramente precisa declarar diretamente aquilo que pensa. Prefere conduzir o leitor por um raciocínio aparentemente simples até que, quase sem perceber, este se veja diante de uma contradição. O humor e a ironia tornam-se, assim, instrumentos de observação social.
O Rio de Janeiro que aparece nessas crônicas é o da segunda metade do século XIX: capital do Império e, posteriormente, da República, centro político e cultural do país e palco de profundas transformações. Machado acompanha essas mudanças de perto e registra não apenas os acontecimentos, mas também a maneira como as pessoas reagem a eles.
Suas crônicas ultrapassam o interesse puramente literário
O cronista registra o presente, mas o tempo transforma esse presente em documento histórico. Aquilo que para o leitor do século XIX era uma notícia ou uma discussão política passageira torna-se, para nós, uma janela para compreender os costumes, as preocupações e as contradições daquela sociedade.
Mas Machado não é um historiador no sentido tradicional. Seu compromisso é outro. Ele observa o mundo e o devolve ao leitor filtrado por uma inteligência profundamente crítica.
Há uma característica especialmente interessante em sua maneira de escrever: Machado parece desconfiar das certezas. Quando todos parecem saber o que está acontecendo, ele procura aquilo que ficou escondido; quando determinada ideia é apresentada como evidente, procura sua contradição.
Por isso, muitas de suas crônicas continuam surpreendentemente atuais. Não necessariamente porque os acontecimentos que comenta permaneçam atuais, mas porque os comportamentos humanos que observa continuam reconhecíveis.
A política muda. Os governos mudam. As instituições mudam. As modas desaparecem. Mas a vaidade, o interesse, a ambição, a busca por prestígio e as contradições humanas permanecem.
A permanência explica parte da força de Machado como cronista
Há ainda um aspecto particularmente interessante quando colocamos este volume ao lado de Crônicas Escolhidas, de José de Alencar, também pertencente à coleção. Os dois escritores foram importantes jornalistas e cronistas do Rio de Janeiro, e ambos ajudaram a transformar o jornal em espaço de literatura e reflexão.
Alencar, mais jovem, registrava o movimento da Corte e os costumes de seu tempo. Machado, com seu estilo amadurecido e sua ironia característica, levaria a observação do cotidiano a uma profundidade ainda maior.
Os dois livros, portanto, podem ser lidos quase como duas janelas para o Brasil do século XIX.
E há uma razão especial para que esses volumes tenham lugar numa biblioteca dedicada também à história e à memória. Um cronista é, involuntariamente, um arquivista do presente. Ele registra aquilo que seus contemporâneos talvez considerassem pequeno demais para entrar nos livros de história.
Séculos depois, justamente essas pequenas coisas podem ser aquilo que mais nos interessa.
Crônicas Escolhidas, de Machado de Assis, é, assim, mais do que uma reunião de textos jornalísticos. É um convite para observar o Brasil do século XIX através dos olhos de um escritor que compreendia profundamente a sociedade e, sobretudo, as fraquezas dos homens.
E talvez essa seja a característica que melhor explica a permanência de Machado: ele escrevia sobre o seu tempo, mas enxergava muito além dele.
Na mesma coleção
Este volume faz parte da mesma coleção que reúne Crônicas Escolhidas, de José de Alencar. Os dois livros oferecem ao leitor uma oportunidade singular de acompanhar, através da crônica jornalística, a vida do Rio de Janeiro no século XIX. Em Alencar encontramos o jovem escritor que observa a Corte “ao correr da pena”; em Machado, encontramos o cronista que transforma o cotidiano em uma sofisticada reflexão sobre a sociedade e a natureza humana.
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